A brecha orgástica ou por que as mulheres hétero são as que menos chegam ao clímax

Matéria publicada originalmente no jornal El País Brasil
Rita Abundancia (30/06/2018)

Nessa nova onda do feminismo, nós mulheres não só deveríamos pedir direitos iguais, representação igual nos cargos de poder e pretender receber o mesmo que nossos colegas homens; deveríamos estar dispostas a aproveitar da mesma cota de prazer, já que a brecha de gênero se estende à cama e à sexualidade.

De acordo com um estudo sobre a frequência dos orgasmos, realizado entre diferentes universidades norte-americanas e publicado na revista Archives of Sexual Behavior em janeiro de 2018, as mulheres heterossexuais são o grupo que chega menos vezes ao orgasmo, já que chegam ao clímax em somente 65% das vezes que mantêm relações. Por outro lado, no primeiro lugar estão os homens heterossexuais, com uma porcentagem de orgasmos de 95%, seguidos pelos gays (89%), os homens bissexuais (88%), as lésbicas (86%) e as mulheres bissexuais (66%).

É curioso como eles, com suas diferentes orientações sexuais, estão nas primeiras colocações nesse ranking que não faz outra coisa senão traduzir à linguagem do sexo as diferenças de gênero, já congênitas em nossa sociedade. Nessa altura já imagino muitos homens argumentando que só faltava ser da sociedade patriarcal a culpa das mulheres terem dificuldade para gozar. Nada mais distante de minha intenção entoar aquele bordão falso e inadequado de que “não existem mulheres frígidas e sim homens inexperientes”. Cada um/a é responsável por seu próprio prazer e, se é verdade que a sexualidade e o corpo feminino são mais ‘complicados’ (eu diria sofisticados) e requerem mais treinamento para seu manejo; também é verdade que a capacidade de aproveitar (e não me refiro somente ao sexo) não depende somente da biologia, genética e fisiologia; mas da cultura, do entorno e do ambiente em que se cresceu. Pais felizes fazem crianças felizes e sociedades doentes, puritanas e com uma relação ruim com o sexo fazem mulheres e homens (que já começam a incorporar essa tendência) anorgásmicos.

Betty Dodson, conhecida como a avó da masturbação, apareceu há pouco em um vídeo do Playground reconhecendo que levou 35 anos para conectar seu clitóris com sua vagina. A norte-americana dedicou mais de meia vida a ensinar outras mulheres como sentir prazer, a masturbar-se, em seus cursos de Body Sex, que escandalizaram os Estados Unidos nos anos 70. Dodson, pioneira do feminismo sexual, acha que já é tempo de falar da igualdade nos orgasmos. “Vejo como a próxima onda do feminismo será baseada na sexualidade e no orgasmo feminino. E isso irá mudar a energia do universo”, diz a especialista.

A ciência e seu tímido interesse pelo prazer feminino
Não faz muito tempo que os sexólogos se perguntam do porquê dessa lacuna de gênero, já que o prazer feminino nunca foi da incumbência da ciência. De fato, os primeiros estudos feitos sobre o orgasmo masculino datam de entre 1930 e 1950. Enquanto nos anos 30 do século passado, como diz um artigo do The Guardian, “alguns estudos começavam a dizer que certas mulheres reconheciam ter orgasmos”. Nos anos 60, Masters e Johnson descobriram que entre 14% e 16% das mulheres se reconheciam multiorgásmicas; mas os estudos mais sérios sobre o orgasmo feminino vieram com Barry Komisaruk.

O neurocientista norte-americano fez o primeiro mapa cerebral do prazer feminino em 2011 graças aos seus estudos sobre a atividade neuronal antes, durante e depois do orgasmo através de uma técnica de ressonância nuclear magnética funcional, um exame médico que permite visualizar a ativação e desativação de determinadas áreas do cérebro. O mecanismo do orgasmo feminino ainda está cercado de mistério, da mesma forma que sua função evolutiva. No homem, o clímax sempre foi interpretado como um mecanismo de recompensa (se é uma ação prazerosa será repetida o maior número possível de vezes, assegurando assim a descendência). Por que não é visto assim na mulher e se empenham em dar a ele uma função reprodutora? Muitos, entre eles Komisaruk, acham que há um propósito para o êxtase. As contrações involuntárias do útero durante o orgasmo teriam a função de ajudar o sêmen a alcançar as trompas de Falópio e realizar assim a fecundação.

Na opinião de Francisca Molero, sexóloga, ginecologista, diretora do Institut Clinic da Sexologia de Barcelona, do Instituto Iberoamericano de Sexologia e presidenta da Federação Espanhola de Sociedades de Sexologia, “demorou muito tempo até a ciência normativa levar a sério o tema do prazer feminino e, sem dúvida, os estudos feitos até agora, tanto para homens como para mulheres, são contemplados somente a partir de duas perspectivas: os que estão muito centrados na resposta fisiológica e os que veem exclusivamente o lado psicológico; mas não há nenhum que integre essas duas vertentes. E acho que seria algo essencial para se compreender melhor a resposta sexual”.

O orgasmo, uma aprendizagem que deve ser feita
Para Molero o maior inimigo do orgasmo é o desconhecimento do próprio corpo. “A vida é definida pela aprendizagem e a sexualidade também deve ser aprendida. Muitas mulheres desconhecem seus genitais, não sabem muito bem onde está seu clitóris e confundem os termos vagina e vulva. Os meninos se masturbam desde muito pequenos e na puberdade chegam a fazê-lo como um ato coletivo, falam disso; algo impensável entre as meninas. Quando as mulheres vêm à consulta e recebem a recomendação de masturbar-se para familiarizar-se com seus genitais costumam ver esse processo como algo imposto, uma obrigação desprovida de qualquer sinal de curiosidade. Algo que, certamente, tem muito a ver com a maneira como foram educadas. Elas esperam passar do desconhecimento e da atividade sexual nula da infância e adolescência, ao desfrute do sexo através de um companheiro, mas nem sempre é tão fácil”.

O relaxamento é outro elemento necessário ao prazer, já que os orgasmos não gostam dos ambientes carregados e com muito estresse e da sociedade do cansaço, tão bem explicada pelo filósofo Byung-Chui-Han. Graças às descobertas de Komisaruk, foi possível ver que as mulheres têm orgasmos facilmente, possuem mais ondas alfa em seus cérebros (as que são produzidas em estado de relaxamento); deixando assim mais espaço ao prazer.

“É muito difícil ter um orgasmo se você está nervoso”, diz Molero, “quando a parte vigilante está alerta, é impossível focar-se nas emoções e nos sentidos. É preciso estar em um modo relaxado, mas de desfrute, e a ansiedade é o inimigo número um do prazer. Nesse aspecto, os homens têm vantagem sobre nós, porque eles aprenderam a utilizar o sexo como método para relaxar, como um mecanismo natural de adaptação. Um homem pode ter um dia ruim, mas chega em casa e pode querer ter relações com sua companheira. É mais difícil que essa situação ocorra com uma mulher, ela precisa estar bem para querer sexo. Certamente, séculos de repressão (a mulher que aproveitava abertamente o sexo e o reconhecia não era bem vista) bloquearam esse mecanismo nas mulheres”.

O coitocentrismo, o conceber a relação sexual única e exclusivamente como um pênis que penetra uma vagina é também um modelo curto, limitado e que não satisfaz a todas. De fato, as lésbicas têm um índice de orgasmos muito mais elevado do que suas companheiras hétero. “Elas precisaram explorar mais seus corpos e conhecem melhor suas anatomias e zonas erógenas”, diz a sexóloga. “O clitóris é o centro do prazer feminino, mas a distinção entre orgasmo clitoriano e vaginal já parece algo obsoleto. Agora se fala de um complexo clitóris-uretra-vagina (zona CUV), onde estaria localizado o mapa do prazer e que incluiria o controverso ponto G”.

A resposta à falta de orgasmos pode estar também no consumo de certos remédios, como os antidepressivos e os ansiolíticos, e nos problemas de casal. “Não confiar e não se sentir acolhida pelo companheiro pode causar falta de prazer”, diz Francisca Molero, “e depois estão todos os possíveis boicotes que fazemos a nós mesmas (não mereço, não tenho o corpo que quero e deveria, etc). Existe um perfil de mulher que tem dificuldades para chegar ao orgasmo ou que nunca o teve, com traços comuns: são rígidas, controladoras, não se permitem apaixonar-se e podem chegar a confundir o prazer com o afã do controle”.

Como diz Valerie Tasso em seu livro Antimanual de Sexo (Assuntos de hoje), “não se tem um orgasmo, se aprende a tê-lo. Ou melhor dizendo, se aprende a ‘permitir-se’ tê-lo. É preciso instruir-se não só no conhecimento da própria reação sexual diante de determinados estímulos anatômicos, mas, principalmente, é preciso formar-se na difícil arte de deixar-se levar, de deixar que a decisão fique nas mãos de nossa resposta sexual e não de nossas ‘razões’. Quando a razão aparece, o orgasmo foge como os cordeiros do lobo (…) O papel do amante no processo tem muito menos importância do que a que se costuma atribuir a ele. Chegar ao orgasmo é uma decisão estritamente pessoal em que o amante é somente um elemento a mais dos que interpretamos em nossa decisão de deixar e não chegar ao eretismo. O orgasmo não nos procura, nós chegamos a ele sozinhos”.

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ale.ezabella

Alessandro Ezabella é psicólogo e sexólogo, pesquisador independente nas temáticas psicologia, história, gênero e sexualidades e membro da ABRAPSO Núcleo São Paulo.

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